JORNAL DO BRASIL - 7/08/05
Encontro magistral na Sala Cecília Meireles

Marcos Souza
Diretor do Atelier Cultural (http://www.ateliercultural.com.br/)
Paulo Jabur

Nos bastidores, a animação e o entra-e-sai de músicos. Um pouco antes do concerto, Wagner Tiso, Nivaldo Ornelas, Armandinho, Elione Medeiros e Paulo Moura, grandes nomes da música instrumental brasileira, ao lado dos músicos da excelente Orquestra Petrobras Sinfônica. No belo palco da Sala Cecília Meireles, os últimos retoques para o projeto marcante que constata a qualidade musical no Brasil, o MPB & jazz 2005. Como pergunta Haroldo Costa no folder de apresentação da série:
''Quantas cidades no mundo poderão, numa só noite, num mesmo local, dispor de tanta diversidade?''
Com a coordenação artística de Tiso e a impecável produção de Giselle Goldoni Tiso e equipe - do Sergio Lima Netto, no som, ao contra-regra Mosquito -, percebe-se a felicidade de ver a Cecília Meireles lotada e um novo encontro da Opes com a música instrumental. Ainda saboreio a noite de gala de abril passado, com Ivan Lins, João Bosco, Nelson Ayres, Zimbo Trio e, claro, a orquestra.

Na última sexta-feira, teve a presença de Yamandú Costa, Ana de Holanda, Victor Biglione, entre tantos que estavam na platéia atônitos ao ver o casamento do som magistral de uma orquestra com solos marcantes.

Elione Medeiros abriu a noite com seu fagote, passeou por Francisco Mignone, caiu no Chorando baixinho de Abel Ferreira com o belo arranjo de Bruno. Um fagote solando choro.

Nivaldo Ornelas entrou com seu sax-soprano, alto, e o arranjo da tocante peça Variações sinfônicas sobre tema o folclórico 'Se essa rua fosse minha', sob a regência de Wagner Tiso. A parte alta de Nivaldo, além de seus arranjos seguintes para orquestra, é a saborosa melodia de Nova lima inglesa, Concertino para sax-soprano e orquestra. O sopro perfeito de Nivaldo, ao lado de suas belas composições e da verdade sonora da orquestra, levou todos a outro patamar, longe das loucuras urbanas cariocas.

Pausa. Vai começar a segunda parte. Com arranjos de Nivaldo Ornelas, Armandinho pôs fogo no palco com sua guitarra baiana no baião Pororocas e arrasou ao lado da orquestra tocando Brasileirinho. O público foi ao delírio. Seu virtuosismo, guerreando com o violão de sete cordas do carioca Rogério Caetano, empolgou. Paulo Moura, com sua clarineta transparente, mostrou seu casamento com a música ao interpretar Brasiliana número 7, de Radamés Gnatalli, e depois Debussy. Uma pergunta era feita por todos. A resposta: ele não levou partitura, tocou tudo decorado.

Tiso compôs um choro para a clarineta de Paulo Moura. Perfeito, daqueles de fazer todos se mexerem nas cadeiras, com uma frase empolgante e suingada, a cara de Moura: Choro samba quebra, um dos melhores temas da noite. Quando entraram todos no palco veio o grande final, com Aquarela carioca e Doce de coco. Aplausos de pé.

Já conto os dias para chegar dia 7 de outubro. Wagner Tiso e a Orquestra Petrobras Sinfônica encontrarão o bandolim mágico de Hamilton de Holanda, o violão de Marco Pereira e o internacional Stanley Jordan.

É um projeto que deveria rodar o país e o mundo. O encontro da orquestra com a nossa música não existe em lugar algum. Somos privilegiados.

- A nossa arte musical ferve num caldeirão gigantesco, do tamanho do país, feita das contradições, das perplexidades, das inconstâncias, das mutações, enfim, das expectativas da gente - diz Haroldo Costa.